Neurologista CRM 770

Covid-19 e o Cérebro

O encéfalo (cérebro, tronco cerebral e cerebelo) contido dentro do crânio, recebe pelo sangue todos os elementos necessários para sua sobrevivência. É pelo sangue que ali chegam oxigênio glicose, sal, vitaminas e outros nutrientes. O encéfalo em si não tem reservas quaisquer. É por isso que a falta de sangue (isquemia), em poucos minutos provoca danos irreparáveis.

O sangue circula pelas artérias e por elas chega ao cérebro. As artérias vão se dividindo em ramos de menor calibre até os microscópicos capilares. Estes tem paredes compostas de uma célula apenas, fortemente ligada uma a outra (endotélio). É neste local que se fazem as trocas entre o sangue e o tecido nervoso, mas o sangue não entra dentro de encéfalo, apenas algumas substâncias passam de um lado para outro. Assim o fazem o oxigênio, a glicose e outros. A parede do capilar e algumas células que existem no encéfalo (astrócitos) que envolvem os capilares, formam a BARREIRA HEMATO-ENCEFÁLICA (BHE), evitando a passagem de certas substâncias ou outros elementos que possam ser prejudiciais.

Os vírus de um modo geral têm possibilidade variável de ultrapassar a BHE. Uns tem facilidade, por isso são chamados “neurotrópicos” como o da raiva, por exemplo. Se o vírus penetra, provoca uma inflamação no encéfalo que é a ENCEFALITE.  Esta se manifesta por cefaleia, alterações de consciência (sonolência, torpor ou coma), alterações de comportamento (apatia, inquietação, agitação), confusão mental e convulsões.

O novo coronavirus é considerado neurotrópico e tem, portanto, possibilidade de atravessar a BHE.

Além disto, o novo coronavirus pode atingir a encéfalo por outra via: a presença do vírus dentro do nariz, pode comprometer os nervos do olfato; estes nervos entram dentro do crânio por pequenos orifícios no osso que separa a cavidade nasal e o interior do crânio (por isso esta parte é chamada “ lâmina crivosa”); seguindo pelo nervo, o vírus chega ao encéfalo.

Outra possibilidade é que o novo coronavirus que desencadeia uma reação exagerada do sistema de defesa (sistema imune) do organismo, com produção de grande volume de substâncias inflamatórias (interleucinas, citoquinas), o que se denomina “tempestade ou tormenta inflamatória”, mas que considero “incêndio” é mais representativo. Este “fogo” se espalha pelo sangue e vai queimando como numa floresta. É possível destruir a BHE deixando entrar sangue, que é tóxico para o SNC, em alguns pontos mais vulneráveis.  Isto provoca a encefalite hemorrágica ou promove perda de mielina que envolve as fibras nervosas que conectam os neurônios (desmielinização).

A COVID-19 também pode atingir a encéfalo de uma maneira indireta. Esta virose provoca distúrbio da coagulação do sangue, que pode ocluir artérias dentro do encéfalo e provocar acidente vascular isquêmico (AVCI).

A resposta à pergunta acima é sim, o novo coronavírus pode atingir o encéfalo e representar uma grande ameaça. Este artigo é para chamar a atenção para essa complicação grave da COVID-19 e para reforçar ainda mais que AS MEDIDAS DE PREVENÇÃO, INDIVIDUAIS OU COLETIVAS, DEVEM SER SEGUIDAS RIGOROSAMENTE. E, se houver sintomas neurológicos, procure atendimento médico urgentemente.

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