Neurologista CRM 770

Epilepsia

A epilepsia é conhecida desde os tempos primordiais, citada por Hipócrates na era antes de Cristo. E desde então vem permeando o imaginário popular, passando por fases em que era considerada uma dádiva divina e, em outras, dita como obra do demônio.
Hoje a epilepsia é sabida ser apenas uma manifestação de um transtorno cerebral, de causas diversas e que se apresenta como crises de sintomas neurológicos passageiros. A grande crise, a convulsão tônico-clônica generalizada, em que o paciente cai, baba, debate-se todo, morde a língua, serviu para criar uma imagem negativa, como se pudesse ser contagiosa ou degradante. Estas crises são mais facilmente controladas pelas medicações disponíveis.
Grandes vultos da humanidade sofreram de epilepsia (o imperador romano Julio César, o escritor russo Dostoievski, o general Napoleão Bonaparte, o nosso escritor maior Machado de Assis), o que serve para atestar que a epilepsia é compatível com uma existência normal e até brilhante.
A epilepsia é muito comum na população: em um levantamento feito em um CAIS de Goiânia, encontramos 2% de portadores de epilepsia. O que está de acordo com outros levantamentos no Brasil ou em outras partes do mundo.Sabe-se que 80% dos casos são controlados com medicações ( inclusive disponível nos nossos postos de saúde) e alguns pacientes nem as tomam porque as crises são raras ou bem leves.As pessoas assim controladas tem uma vida normal, com poucas restrições e vivem a vida toda sem crises.
O grande problema é o restante 20% que não obtém controle com drogas apropriadas em doses adequadas, mesmo em combinação entre elas. Desta porcentagem, o maior número é portador de crises focais que se manifestam assim: o paciente sente que vai passar mal (aura) que pode ser um mal estar no estômago que ascende, uma tontura, uma visão, uma sensação de estranhar o ambiente. O paciente avisa que não está bem     (“ vou passar mal”, “ aquilo está chegando”) e procura se proteger. Em seguida fixa o olhar, sem piscar e perde os sentidos, não respondendo a perguntas ou o fazendo de modo desconexo; começa a mover os lábios e a boca, como se estivesse mastigando, executa gestos de passar a mão no rosto, ou esfregando uma na outra ou tateando o ambiente; pode ficar parado ou cair ou andar (resiste se contido), sair de casa e até dirigir uma carro ( automatismos). Pode acidentar-se, cair, bater o carro etc. Desperta sem qualquer lembrança do que ocorreu, geralmente dorme por algum tempo e acorda como se nada tivesse acontecido.
Apesar de não ser uma crise tão dramática, o paciente tem limitações na sua vida, não deve dirigir veículos, não pode nadar, não pode usar alcoólicos, não deve trabalhar em ambientes perigosos, entre outras coisas, o que gera frustração, depressão, ansiedade.. Dificilmente consegue manter ou arranjar empregos. Conflitos familiares são freqüentes. Além disto, com o tempo, crises repetitivas podem reduzir a capacidade intelectual, a memória, a atenção, a rapidez do processamento mental, as funções executivas, a linguagem e alterar o comportamento.
Estes pacientes, submetidos a uma avaliação rigorosa, mas bastante bem sedimentada e validada em décadas de experiências, podem obter resultados altamente satisfatórios com a cirurgia de ressecção do foco epiléptico.
Pensando apenas na população goiana, imaginamos haver 20000 epilépticos nesta situação. O resultado final pode ser a cura definitiva da doença ou a redução importante da freqüência das crises, melhorando a qualidade de vida. Poucos casos não se beneficiam pela cirurgia.
A cirurgia de epilepsia tem um índice de sucesso maior do que qualquer outra cirurgia neurológica, as complicações são reduzidas e o paciente pode ser novamente inserido no contexto social.
É inegável o benefício deste procedimento e não se pode privar os pacientes de tal recurso, seja por não conhecer o método ou desconhecer a sua eficácia e segurança.

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